Veja também: Pai Nosso
Antes de entrarmos nesta seção do Tratado da Oração que trata do Pai Nosso, esta notícia, encontrada não me recordo onde, é relevante:
Encontra-se no Tratado da Oração uma pequena dissertação sobre a ousia cuja tecnicidade contrasta com o caráter pastoral e espiritual do conjunto da obra. Trata-se de explicar o adjetivo epiousios, um hapax que qualifica o pão do Pai Nosso e que se encontra nas duas versões dessa oração, a de Mateus e a de Lucas. A etimologia que Orígenes prefere, a partir do prefixo epi e de ousia, dá-lhe o sentido de supraessencial, de supersubstancial: assinala no entanto outra etimologia, considerada habitualmente como mais verossímil, fazendo vir a palavra de epienai, ou mais exatamente de he epiousa hemera, o dia seguinte, designando aqui o dia da vida eterna. No entanto a primeira etimologia é explicada por uma dupla significação da ousia, a incorporal dos platônicos e a corpórea dos estóicos: as duas se reencontram na síntese própria de Orígenes e a segunda, sobretudo em suas explicações concernentes aos corpos ressuscitados. A primeira segundo aqueles que a sustentam não admite nem acréscimo nem diminuição pois são características corpóreas. Os corpos de fato são suscetíveis de se acrescer e de se corromper: devem a cada instante repor o que perdem sob pena de diminuir. Outros, os estoicos, pensam que a essência dos corpos é dominante. A ousia é então a matéria primeira dos seres e dos corpos: subsiste de maneira indeterminada, preexiste aos seres, recebe todas as transformações e mudanças. Segundo sua própria natureza é indeterminada e sem forma, submetida a toda determinação possível. Não participa indissoluvelmente a nenhuma qualidade, mas está sempre ligada a uma qualidade. É inteiramente mutável e divisível e pode se misturar a outra. Retornar-se-á a isso ao estudar o que é a matéria.